Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Um Crime em Farelos

Folhetim nº5

21:56 A noite chegou de mansinho à aldeia de Farelos, um ambiente húmido e misterioso envolvia as ruas agora vazias. Um cão latia ao longe, na adega o silêncio era opressivo, Sarrabulho encostado a um canto pouco iluminado, acende um cigarro enquanto aguarda pacientemente o fim dos 4 minutos que antecedem a chegada dos seus convidados. O ruído de algumas portas a bater e passos incertos e nervosos chega-lhe aos ouvidos. O cenário está montado, a mesa com as 7 cadeiras dispostas em meia lua já se encontra pronta para receber os convidados. O primeiro a chegar é Abílio, Serôdio indica-lhe a quinta cadeira a contar da esquerda. A pouco e pouco os restantes elementos vão entrando e sentando-se nos respectivos lugares. Toni e o Padre Jacinto à esquerda de Abílio na sexta e sétima cadeiras. Ana Paula, Chico, Catarina e Joaquim nas primeiras quatro cadeiras. Ninguém fala, todos parecem nervosos, Catarina com as mãos no colo torce e retorce a bainha da bata azul que trás vestida, Toni acende um cigarro após partir quatro fósforos. Ana Paula presta-se a ter um ataque apópletico a qualquer momento, de tão branca e rígida que se encontra, Chico olha desconfiado para todos, Abílio franze o sobrolho enquanto Joaquim estala os dedos e em seguida cruza os braços. Só o Padre Jacinto se mantém mais calmo, embora tamborilando com o indicador no tampo da mesa e uma expressão entre curioso e penoso. Ninguém reparara na figura semi oculta na escuridão a fumar. O sino da torre da igreja começa a soar…dez badaladas!

Eram 22:00h da noite de Quarta-feira.

Sarrabulho sai das sombras e inicia o seu relato:

- São agora 22:00h, ontem a esta mesma hora Carlos Miguel foi brutalmente assassinado neste espaço. Alguém o estrangulou, após uma tentativa falhada de envenenamento.

Os espectadores sobressaltados pela voz do detective saltam nas cadeiras e apresentam uma renovada atenção nos semblantes. Sarrabulho continua…

- Todos nesta sala à excepção do Padre Jacinto, têm um motivo, ou vários, para terem assassinado Carlos…

A voz de Chico faz-se ouvir:

- Não pode ser, isto é uma brincadeira de mau gosto detective, insinua que um de nós é o assassino?? Mas isso é uma ofensa, nós somos pessoas de bem…

- Não se exalte, um de vós é o assassino e provarei isso mesmo esta noite. Não é verdade Ana Paula?

Todas as cabeças se voltam para Ana Paula, cada vez mais pálida…

- Eu??

- Sim porque não? Tem vários motivos, todos com um mesmo fim: a vingança…Carlos despediu-a na semana passada, apanhou-a a roubar e ja não era a primeira vez, de acordo com algumas testemunhas você disse que se iria vingar…há ainda outro factor que a incrimina, tentaram envenenar Carlos com um ingrediente muito particular, ingrediente esse anotado numa receita, escrita com letra de mulher, encontrada no chão da cozinha de Carlos. Comparei essa letra com a letra do caderno de receitas da cozinha do restaurante e cheguei a uma conclusão: a letra é a mesma. Mas não nos precipitemos, vamos ao segundo motivo, você é prima de Chico e poderia muito bem ter tomado as dores do seu primo como suas e juntar o útil ao agradável… O que lhe parece Chico?
Seria o ideal para sí. Ainda há pouco revelou serem todos pessoas de bem, mas também tinha problemas com Carlos. É do conhecimento geral que lhe guardava rancor, por este ter aberto um estabelecimento comercial muito mais lucrativo que o seu e foram várias as discussões que teve com Carlos em praça pública ameaçando-o inclusivé de morte…

No entanto o mais engraçado é que nenhum de vós tem alibi para a noite passada, logo poderia ter sido qualquer um… ou será que pelo menos uma pessoa tem?… Catarina, os seus esforços para ocultar o seu amor por Carlos foram em vão…na realidade acredito que seja a única a ter alibi…e quem o poderia confirmar está morto. O que aconteceu? Carlos não correspondia ao seu amor?

Catarina começa a soluçar convulsivamente e a balbuciar entredentes que eram amantes há muito tempo e que queria casar-se com Carlos mas este tinha-lhe dado a confirmação final ontem de que não se queria casar com ela, estavam tão bem assim, não fazia falta nada mais…
Todos contemplam Catarina atónitos, ninguém fazia ideia que esta e Carlos estivessem juntos. Sarrabulho retira do seu bolso um lenço branco que gentilmente oferece a Catarina, antes de proseguir.

- Continuemos, Joaquim conte-nos sobre a sua grandiosa vida, ah é verdade já me esquecia, essa vida não existe é tudo uma mentira, uma fachada que usa e abusa perante os outros, mas a solução para o seu problema de falta de credibilidade surge tão facilmente, basta matar Carlos e ficar com a herança para continuar com a vida de grandeza e sem fazer nada como de resto passou toda a sua vida. Só que para seu grande azar Carlos, soube há pouco, deixou testamento e tanto quanto pude apurar o Joaquim não é o beneficiário principal… mas as surpresas não acabam aqui, Abílio, sabe que em tantos anos de profissão, raras são as vezes em que uma pessoa é a última a ver a vitima com vida e é quem a encontra morta, sem que tenha algo a ver com isso, ainda por cima alguém cujo passado já é por sí só algo misterioso, a morte da sua mulher foi suspeita e boatos havia que ela teria uma relação extraconjugal com alguém, será que esse alguém era Carlos? Dando-lhe motivo para o matar?

Mas isso seria muito rebuscado e não invalida que realmente não tenha passado de uma infeliz coincidência tê-lo encontrado hoje pela manhã. Finalmente, temos Toni, os seus motivos são óbvios e nunca os escondeu. Nunca gostou de Carlos como fez questão de frisar hoje pela manhã...

Vejo pelas vossas caras que já assumiram que quaquer um de vó poderia ter cometido este crime. Alguém quer confessar, antes de expôr a minha teoria?

O silêncio é quebrado pela voz do Padre Jacinato: - Detective, tem a certeza do caminho que vai seguir? Peço-lhe que tenha atenção, pois se não tiver provas do que irá revelar, pode estar a destruir a vida de um deles. Ninguém mais do que eu espera que o culpado seja chamado à responsabilidade, mas o detective não me parece seguro...

- Sr. Padre, não se preocupe, bom visto que nnguém se acusa, continuarei com a minha dissertação.
De acordo com o testemunho de Abílio, Carlo esteve nesta mesma adega até as 20:30, a encher as pipas. Posto isto, aparentemente mais ninguém teria estado com Carlos, à excepção do assassino. Mas isso não é verdade...acredito que alguém esteve com ele antes, talvez num jantar romântico?... - Sarrabulho, olha directamente para Catarina. Esta não podendo negar, retorna às lagrimas acenando em confirmação.

- Ora bem, Catarina esteve cá e tanto quanto me parece tudo corria bem até ao ponto em que falaram de casamento e a premente recusa de Carlos em casar-se consigo os tenha levado a uma discussão trágica! -Catarina subitamente levanta a cabeça e abrindo muito os olhos, começa a contar a sua versão.

- Não, mas eu não o matei, o Carlos tinha combinado comigo jantar hoje e disse que ia ser um jantar muito especial, eu pensei que ele finalmente me ia pedir em casamento, mas depois do jantar enquanto arrumávamos a cozinha e vendo que ele não puxava o assunto, eu perguntei-lhe. Foi quando ele me disse que não queria casar-se comigo, que estávamos muito bem assim...eu comecei a discutir com ele porque pensava que era a hora, e não queria ficar assim, este sistema já nõ resultava para mim...Carlos não pensava assim e acabámos tudo...Mas eu não o matei eu juro...amava-o demasiado para lhe fazer uma coisa tão terrível, acabei por me ir embora por volta das 21:50, fui direita a casa e só de lá saí hoje pela manhã para trabalhar...

- Não se preocupe, eu não acredito que seja a assassina, até porque há ainda o factor de quem cozinhou o jantar, e não sendo a Catarina, muito menos seria Carlos, que saberia seguramente que era alérgico a um ingrediente específico da receita: o leite de côco. O que nos leva à cozinheira...Ana foi você que preparou o jantar não é verdade?...

Inspirando fundo como que a ganhar coragem Ana Paula revela: - Eu só queria pregar-lhe uma partida, para me vingar...não o queria matar, no máximo ele teria uma dor de barriga, nada mais, no mês passado descobri que ele era lacto-intolerante e ontem de manhã cruzei-me com ele na rua e fui mais umavez pedir-lhe desculpa, perguntei-lhe se havia algo que pudesse fazer para o compensar, ele respondeu-me que ia ter um jantar importante e que precisava de ummenu elegante. E assim foi, por volta das 18:30 passei por casa dele e deixei tudo preparado para que ele depois quando chegasse a hora terminasse o jantar, demorei-me cerca de uma hora, mas não voltei, juro, juro que não o matei...

Sarrabulho acena suavemente, e olhando uma a um nos olhos prossegue: - Há uma questão intrigante, o que aconteceu ao vinho desaparecido...Toni, gostaria de partilhar algo mais connosco? Sabe, eu não fiquei convencido com o seu depoimento, você diz que passou a noite na eira mas isso é incorrecto, o que acredito que realmente tenha acontecido é que o Toni, uma vez que nãogostava de Carlos, tentou pregar-lhe uma partida, roubando-lhe o vinho e despejando-o ali atrás na levada recolhendo-se para dormir no curral dos burros aqui do sr. Abílio.

- Não tem provas de nada, do que diz, como pode saber isso?

-Como sei eu isto? Muito simples, nas suas idas e vindas a palha e o estrume do curral ficaram presos a sua roupa e distraido não reparou que tinha deixado pistas para trás, aqui nesta mesma adega. Após análise, descobri que não só na eira este material não existe mas também que estava mais perto do que pensava,na casa do lado. No entanto não se apoquente eu sei que também não foi você quem matou Carlos. Se me permitem retomarei a minha teoria acerca dos acontecimentos.

Após a saída de Catarina, Carlos preparava-se para ir dormir, quando algum ruído lhe despertou a atenção para a adega, provavelmnte as actividades nocturnas de Toni, quando aqui chegou deu-se conta que a pipa estava vazia e foi aí que foi brutalmente atacado de surpresa não tendo tempo de resposta de defesa. Só teve tempo de revelar a sua surpresa pela pessoa em questão, que provavelmente nunca julgaria capaz de um acto como aquele e pelo qual ficou com os olhos esbugalhados. Carlos nunca acreditaria, - pausa, virando-se para o centro da mesa.- que você, de todos os presentes o que tem menos motivos, aparentemente, fosse o assassino! Abílio Macieira!!!

Silêncio total! Abílio esboça um sorriso, os restantes discretamente afastam-se dele.

-Como descobriu que tinha sido eu, você mesmo disse que eu era o que tinha menos motivos?...

- Uma coisa sempre me perturbou, quando aqui cheguei esta manhã, reparei em sí que estava ao pé do Guarda Serôdio, com um ar muito calmo, isso não era nada de espantar, o que me chamou à atenção foi ter sabido que tinha encontrado o corpo as 11:23 da manhã e de acordo com testemunhas encontrava-se bastante exaltado, mas só chamou a polícia às 11:38 este desfasamento de tempo torna-se suspeito, considerando que 15 minutos é bastante tempo para ir daqui até à sua casa. Aliando isso à descoberta que fiz com o Padre Jacinto de que estava apaixonado por Catarina desde que esta começou a trabalhar para sí nas limpezas, conduziu-me à seguinte conclusão. Vivendo tão perto de Carlos e não tendo muito o que fazer, seria mais do que provável que se tivesse apercebido da ligação amorosa entre Carlos e Catarina. Acredito que ontem à noite se tivesse apercebido que Catarina estivesse com a vitima e que tenha presenciado pelo menos parte da discussão. Ao ver Catarina sair a correr em pranto o mais certo é que tenha tomado as suas dores e num momento arrebatador atraiu Carlos até à adega para vingar a honra de Catarina, escondendo-se atras da pipa vazia, como um predador à espera da presa, daí a perder o controlo e matar Carlos não bastaram mais que uns segundos. Removeu-lhe o pijama para que aparentasse algo de muito estranho e que levasse as suspeitas para longe de sí, mas na pressa ficou uma meia semi calçada no pé de Carlos. Aguardou a noite toda até de manhã pensando no próximo passo a dar. Que foi fingir que vinha espreitar as pipas, de modo a poder encontrar o corpo. Como lhe disse antes Abílio, em tantos anos de profissão tantas coincidências normalmente são fruto de acontecimentos premeditados...

- Apraz-me saber que fui descoberto por alguém à minha altura, e não um desses saloios que por aí passam de vez em quando... Os meus sinceros parabéns Detective, lembrar-me-ei sempre de sí. Quanto ao que tão brilhantemente revelou não há muito mais a acrescentar. Qaunto a sí Catarina, não posso negar o amor que sinto por sí e o quanto me afligia vê-la a sofrer por Carlos, que não a merecia. Tudo o que fiz foi pelo seu bem, não merecia andar a ser enganada desta forma...Detective, mais uma vez, foi um prazer. Guarda Serôdio, quando quiser estou à sua disposição. Aos restantes, uma boa noite e até um dia.

Serôdio algema Abílio levando-o consigo até ao jipe que o levará para o posto da Guarda onde permanecerá preso a aguardar julgamento.

Sarrabulho acende mais um cigarro, observando os restantes convidados a partirem cabisbaixos rua fora, cada um envolvido nos próprios pensamentos.

A chuva regressou, e as ruas brilham sob o efeito da luz amarelada dos candeeiros. Sarrabulho exala uma baforada de fumo, olha uma vez mais à sua volta, e com a certeza de um trabalho bem feito, afasta-se a passos lentos em direcção ao carro. Nem sequer vale a pena abrir o guarda-chuva...

São 23:27h da noite de Quarta-feira…

Fim


publicado por Bisbilhoteiro às 10:29
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