Quarta-feira, 21 de Março de 2007

A Puta do Mato, o Ânus e o Pénis Bolorento da Miriam (escritora que se vende na fnac)

Puta do Mato

 


Puta do Mato está dentro do sonho de Pénis Bolorento. Entre pegar no telefone para falar com ele e comunicar doutro modo, preferiu rasgar um pouco o tecido da realidade, rasgá-lo, não penetrar nele, e confrontá-lo. Nunca tinha entrado nos seus sonhos antes por vergonha e medo de o intimidar e também por lhe respeitar a privacidade. Mas amantes honestos costumam visitar-se, e amar-se, em sonhos. Porém a honestidade entre os dois fora trocada por outra coisa que ela não sabia definir.
- Chamei-te - diz Puta do Mato à figura enevoada sentada em cima de uma cama de ferro negro. Tem cobertas brancas que contrastam com o ferro retorcido em círculos simétricos. Pénis Bolorento dissolve-se, é névoa difícil de apanhar, de conter em redor das mãos, de abraçar. Puta do Mato tem medo de se aproximar muito, pode dispersar as moléculas para longe. E depois, como falará com ele? Não se pode falar com o espaço vazio, mas também não se dialoga com a névoa.
- Chamei-te. Não vieste.
- Ir onde? - responde, tornando-se mais sólido. Distinguem-se os olhos e pouco a pouco o nariz e os lábios cheios reaparecem.
- Ter comigo - diz, sentando-se ao lado, na cama, e virando o rosto na sua direcção. Com cuidado não o tocou. Temia que se quebrasse como um espelho e despertasse do sonho na sua cama.
Pénis Bolorento olha para longe, subitamente esquecido de Puta do Mato. Ela estreita os olhos. Ao fundo há dois berlindes de cor florescente a brilhar, um azul, outro verde. Pénis Bolorento desliza no chão como um Ânus na direcção das jóias. Estas parecem afastar-se cada vez para mais longe, a cada passo que dá. Pénis Bolorento gatinha com pressa, aumenta o ritmo, mas as jóias afastam-se para além do horizonte sem sol.
Puta do Mato está na cama a reprimir as lágrimas (sim, também se chora nos sonhos. No momento, na realidade, Puta do Mato está na posição fetal e o Ânus cheira-lhe a cara e avança os bigodes para ela, preocupado. Põe uma pata dentro da testa e entra para o sonho). Levanta-se. Baixa-se para Pénis Bolorento. Pega no seu rosto apático, diz Amo-te, e beija-o. De início não se apercebe de nada, mas a seguir a apatia levanta como um manto de nuvens a ameaçar tempestade e ele retribui com paixão. Quando se separam ele sorri, reconhece-a, Puta do Mato, diz, Puta do Mato.
O Ânus roça-se nela, de cauda alçada, e faz pffff para ele. Não gosta de Pénis Bolorento. Pénis Bolorento estende a mão lentamente para o felino, com a intenção de lhe fazer uma festa, mas é repelido com uma sapatada. Au!, diz ele, arranhou-me.
- Mau! Feio! - diz Puta do Mato.
- Para que perdes o tempo com este tipo? - diz o Ânus. - Não gosto dele. Não serve para ti.
- Alguém te pediu a opinião?
- Ele fala? - diz Pénis Bolorento aparvalhado.
- Pois claro que falo. Bípede idiota... - sibila o Ânus, limpando a cara com a pata de costas para ele.
- Ele fala? Mas fala?
- Pénis Bolorento, olha para mim.
- Devo estar a sonhar!
- Por acaso...
- Um Ânus que fala...
- Larga-o - diz ele a Puta do Mato. - Não tens tempo para te dedicar a idiotas deste calibre.
- Chiu. Cala-te - vocifera num murmúrio.
- Tempo? - diz Pénis Bolorento.
- Não lhe disseste! - exclama o Ânus surpreso.
- Cala-te - diz Puta do Mato entredentes, num tom ameaçador, de olhos arregalados. Faz um gesto de mão e o Ânus voa para longe aos rodilhões, como as ervas secas dos desertos americanos.
- Miiiaaauuuu... - diz ele, magoado no seu felino orgulho.
Tem sempre a mania de se meter onde não é chamado, espuma Puta do Mato, quer saber tudo, mas se lhe peço para me contar a mínima coisa, é o contas! Coscuvilheiro de um raio. Amanhã dorme no olho da rua e que se amanhe com os zombies. Quero lá saber.
Procura Pénis Bolorento, mas ele afastou-se. Está de pé a observar as duas jóias, ao nível do seu peito, quase pode tocar-lhes, mas elas afastam-se só um pouco, fica a milímetros de lhes roçar os dedos. Aquele espaço mínimo irrita-o.
- Pénis Bolorento... - chama Puta do Mato do seu lado. Ele ignora-a. Nem a vê. De repente, num salto, o Ânus reaparece, pula sobre as jóias e aterra de barriga colada ao chão. Pénis Bolorento assusta-se, salta para trás, põe um joelho no solo, diz bichano, bichano, deixa ver, deixa... O Ânus ronrona de forma ameaçadora e levanta-se deixando nada a descoberto. Permite que Pénis Bolorento vasculhe no meio do pêlo, como se tivesse sido sedado para uma visita ao veterinário, sem nada descobrir. Antes de o largar o Ânus revela:
- A Puta do Mato vai morrer.
Ele arregala os olhos, volta-se, rápido e nervoso, para ela. Puta do Mato está pálida, de olhos esbugalhados. De súbito ele acorda a chorar e mergulhado em suor na sua cama vazia. Agarra no telefone e repara nas horas: 3h12, não pode telefonar a Puta do Mato àquelas horas.
Levanta-se, molha a cara, anda pela casa (não repara que os móveis o espreitam pelo canto dos olhos) e cai em si - era um sonho, o estúpido de um sonho. Mas, realiza, então porque o terá afectado tanto? Porque o terá deixado naquela desalmada condição? A realização do porquê limpa-lhe a mente de pensamentos.
Puta do Mato está fodida com o filhodaputa do Ânus. Ala, Ala!, ralha ela, enxotando-o da cama quente e acolhedora, Lá para fora! Andor! ANDOR!, grita enfurecida. Mas Puta do Mato, mia ele, fazendo a sua cara mais triste, apelando à compaixão da bípede, lá fora está muito frio! Eu morro com o frio! Havia de ser o dia, diz ela com escárnio, em que me saísse a sorte grande. Ala para fora, caneco! Puta do Mato, por favor, implora o Ânus; Rua!, diz enxotando-o para o exterior da casa.
E agora, o que dizer a Pénis Bolorento? Ele podia continuar cego, surdo e mudo quanto à magia que o mudo encerrava, mas por vezes ela duvidava, por vezes parecia que ele tentava desesperadamente ignorar ou fazer de conta que não via o que já via. Talvez ignorasse este sonho. Talvez. Em todo o caso, se lhe perguntasse, ela mentiria.
*

 

Ela abraça-o por muito tempo, de olhos fechados. Há qualquer coisa que o anda a incomodar, mas não sabe o quê, e esse gesto, esse indelével abraço lembra-lhe o sonho, o pesadelo que tinha tido há uma semana. Estranho. Ele não se lembrava dos sonhos, não era costume e muito menos com uma semana de atraso.
Puta do Mato, disse; Sim, respondeu. Tive um sonho esquisito!, disse ele, galhofeiro, de braço apoiado no chão e a outra mão a tocar suavemente o estômago dela. Hum, disse ela. Ela dizia ¨Hum¨ quando não queria falar das coisas. A pulga instalou-se atrás da orelha.
- Estranho como?
- Estranho... sei lá. O teu Ânus falava.
- O meu Ânus?
- Sim. Havia qualquer coisa que me distraía, não recordo o quê. Tentei, não sou capaz. Mas lembro-me vividamente que o teu Ânus falava. E comeu qualquer coisa. Acho que comeu. O teu Ânus não fala, pois não? - perguntou, brincalhão.
- Ora pois! Era logo! - disse ela a rir-se. Súbito ficou com o rosto sério. Ele perguntou, preocupado:
- O que foi?
- Estás a aleijar-me.
- Desculpa - e deslizou para o lado. Após um momento de silêncio disse:
- Disse-me que ias morrer.
Puta do Mato estreitou as sobrancelhas.
- Quem?
- O Ânus.
- O Ânus - riu-se.
- Tu ficaste muito zangada. Depois acordei. Lembro-me que antes de despertar te vi no sonho a olhar para ele zangada.
- Eu também lá estava, então.
- Sim.
- E havia mais alguém?
- Não. Apenas eu, tu e o teu Ânus. Puta do Mato... - e baixou o rosto - não estás doente, pois não?
Ela virou-se para o lado e começou a rir, o corpo dando minúsculos saltos.
- Que parvoíce. Que raio de pergunta. Agora acreditas em sonhos?
- Não, mas... não sei, aquele... não há nada de errado, pois não?
- Está tudo óptimo - respondeu sorrindo sem mostrar os dentes.
- Ainda bem - pousou-lhe a mão na face. - O teu Ânus, onde anda?
- Ó, por aí, às gatas, a caçar ou a brincar. Não é muito caseiro.

 

 

 

Amaram-se muitas horas seguidas. Pénis Bolorento estava mais gentil do que nunca. Não lhe diria nunca. Estava a ser egoísta, sabia-o, mas aqueles momentos de amor eram-lhe preciosos, queria beber cada um deles como se bebesse da fonte da eterna juventude. Não era justo que ele, um dia, chegasse e chegasse apenas para o seu funeral, mas não era capaz de contar-lhe. Queria todo o seu amor antes de ir, não queria a sua mágoa, as lágrimas, o afastamento. E depois não houve foda, nem sexo, nem amor, nem o caralho.
Mataram-se num sol que queimava por exposição doentia e tardia, o cinismo saia-lhes pelas orelhas em fumo ou lá o que era... para nunca mais voltar.


publicado por Bisbilhoteiro às 13:00
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